
JORGE MAIA - O Jogo
Durante a maior parte da temporada, Jesualdo Ferreira não teve opção. Quando podia contar com Quaresma, não podia contar com Anderson; quando podia contar com Anderson, não podia contar com Quaresma. Quando não era Tixier a partir os queixos a Quaresma, era Katsouranis a partir o perónio a Anderson e quando não era uma coisa nem outra, era Quaresma a cumprir castigo ou Anderson a recuperar de uma paragem longa. Foram quase sete meses de desencontros que mantiveram afastados dois dos maiores talentos do campeonato português e deixaram o FC Porto coxo. Agora que Anderson está finalmente recuperado, tal como a sua exibição frente ao Nacional demonstra para lá de qualquer dúvida razoável, e Quaresma está finalmente disponível, depois de cumprir um jogo de castigo, há quem coloque em causa a compatibilidade de ambos, garantindo que o primeiro faz sombra ao segundo e vice-versa. Como se não houvesse espaço para tanto talento na mesma equipa. Um evidente disparate
Carmona Rodrigues vive os últimos dias na presidência da Câmara de Lisboa, de onde foi publicamente despedido pelo partido que o fez eleger e quando se tornou penosamente evidente que Lisboa já nem sequer estava a ser governada. Parece, todavia, que não se quer ir embora sem aprovar a favor do Sporting um controverso projecto de urbanização que é tudo menos transparente. Mandaria o bom senso que deixasse o assunto para quem se lhe seguir. E mandaria o decoro que, três dias antes de forçar a votação do projecto, não estivesse em Alvalade, sentado ao lado do presidente do Sporting, a assistir ao jogo. Mesmo Carmona Rodrigues, que todos têm como um homem sério, não está ao abrigo da cominação da mulher de César…
Pela quinta vez consecutiva, um adversário do Sporting entregou-lhe o jogo mal soou o apito inicial. Parece que têm pressa em perder, o que, obviamente, facilita e de que maneira os triunfos leoninos: mal começam os jogos, a equipa fica aliviada de pressão, sem ter de correr contra o tempo nem contra a sorte. No Dragão, o FC Porto chegou ao intervalo empatado a zero, depois de ter falhado uns seis ou sete golos e de ter marcado dois que não valeram — um dos quais, ninguém sabe porquê. Em Alvalade, com um minuto de jogo, canto e autogolo. Faz uma diferença, uma grande diferença.
Aconteceu já há uns quinze dias e eu esperei para ver se alguém se indignava publicamente com o assunto. Esperei em vão. E, todavia, foi das coisas mais graves que sucederam ultimamente no desporto português. Depois de o presidente do Benfica, a propósito dos incidentes no Benfica-Porto, ter declarado que, de futuro, o clube se reservava no direito de interditar a presença de adeptos do adversário no Estádio da Luz, depois de o inquérito do MAI ter concluído que os incidentes eram da responsabilidade do Benfica e da PSP, um autocarro com adeptos do FC Porto que vinham assistir ao Benfica-Porto em hóquei em patins, foi interceptado pela polícia em Alverca e impedido de entrar em Lisboa. Apesar de a bordo viajarem inclusivamente adeptos com bilhete já comprado para o jogo.
Concluo assim que a PSP está ao serviço do presidente do Benfica e faz cumprir os seus desejos ou ordens, mesmo quando isso implica vedar o acesso a espectáculos abertos ao público por lei, ou, pior ainda, quando isso implica que cidadãos portugueses sejam impedidos de entrar numa cidade do País. Nem na Idade Média os nobres se permitiam controlar assim o direito de entrada nas suas terras! Já imaginaram um autocarro de adeptos do Benfica ser impedido pela polícia de passar além de Vila Nova de Gaia?
Ah, mas Deus, se existe, não dorme: mesmo assim, o Benfica perdeu o jogo e o campeonato…
