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18/12/10

Porque hoje é sábado..."Era incrível o que nos faziam. Não é mentira que quando íamos jogar a Lisboa já levávamos meia derrota. Saíamos a chorar..."

Esta entrevista ao grande Barrigana saiu no jornal O Jogo há uns anos atrás e encontrei-a esta semana no Portal dos Dragões por acaso. Como é muito interessante e continua muito actual aqui está ela para quem não a conhece:


Não posso com o Benfica. Incomodam-me esses jornalistas, como o Alfredo Farinha, que só querem o mal do Porto. Andei 14 anos a ser roubado com a camisola do Porto e sei bem o que devem sentir agora os jogadores. Não posso ouvir a telefonia… Os relatos mexem comigo. E até com a televisão tenho que ter cuidado, porque há esses programas com os comentadores que são tendenciosos. Como esse Braga que canta mal como o carago”.

Frederico Barrigana continua a ter o coração tão Azul e Branco que é um homem permanentemente revoltado. Dá para perceber pelas suas palavras.

Não vi melhor do que eu
Vive em Angeja, às portas de Aveiro, e caminha para os 78 anos. Casou há cinco, pela segunda vez, e ficou por ali, numa casa envergonhada, todavia, um lar, mas distante da cidade do coração, porque o dinheiro é curto e a vida está pela hora da morte. Os 54 contos que recebe do FC Porto, mais os 30 da reforma, não lhe dão sequer para se deslocar às Antas.
Por isso fala com nostalgia e deixa implícita a vontade de estar mais vezes nas Antas. Ao longe o sofrimento é maior. As mãos tremem pouco, os olhos deixam escapar uma lágrimas dirás quando lhe perguntam pela saudade do passado. É um crítico e um homem sem dúvidas: “Se fui o melhor guarda-redes de sempre no FC Porto? Para trás de mim, não sei, mas depois de mim não vi melhor do que eu, com todo o respeito pelo Vítor Baía e por outros grandes nomes que passaram pelo clube”.

Mãos de ferro
Dá uma vontade imensa de alterar a estrutura das “Memórias” e fazer deste texto um desembrulhar de histórias de um homem com um passado riquíssimo. Que se ri com algumas situações que passou. “Vou lá esquecer o dia da minha estreia, em Guimarães! Havia 2-1, um jogo incrível. Houve um ‘back’ central que se lesionou e o Pinga passou para esse posto. O Pinga não, o senhor Pinga, que era como lhe chamava. Tinha 18 anos e um grande respeito por ele. Houve um cruzamento para a área e ele gritou-me: ‘Sai Barrigana’. Eu sabia que se saísse não ia captar a bola, mas pelo respeito que lhe tinha…saí. Foi golo
Tinha chegado ao FC Porto, em 1940… por acidente, emprestado pelo Sporting. “O FC Porto tinha um guarda-redes, o Bela Andrasik, húngaro, que foi acusado de espionagem antinazi. Teve medo que a polícia de Salazar o prendesse e… desapareceu. Nunca mais ninguém soube dele. Nessa altura, o Sporting tinha cinco guarda-redes. Eu era um deles e foi a mim que pediram para dispensar. Vim, de boa vontade, porque não me davam oportunidades e… fiquei no FC Porto 14 anos. Nunca pude descansar, porque tive suplentes de luxo – Acúrcio, Américo e Pinho. Eram todos muito bons”.
Pelo meio, as internacionalizações – 12, e foi num jogo com a camisola de Portugal que ganhou o direito a ser conhecido como o “Mãos de Ferro”. “Fomos jogar a França e perdemos 2-0. Mas fiz um jogo tremendo. Apanhava tudo, tudo, e os golos que sofri, um ao terminar a primeira parte e outro a abrir a segunda, foram bolas impossíveis. Os jornais fartaram-se de me elogiar. Os espanhóis classificaram-me como o Zamora português. Grandes tempos”.
E porquê “Mãos de Ferro”? “Encaixava tudo. Não percebo muito bem a maneira de defender de alguns guarda-redes de hoje. Eu agarrava a bola, mesmo em voo. Uma vez agarrei um remate com tal violência que ia asfixiando”…

Andámos 14 anos a ser roubados
Barrigana recorda os seus dotes com orgulho e faz até comparações. “Pelo ar, não dava hipóteses a ninguém. Olhe, aquele golo que o Vítor Baía sofreu no Sporting [livre de André Cruz] para mim era canja. Os guarda-redes hoje, antes de voarem para a bola, dão um passinho ao lado, e perdem tempo com isso. É um atraso fatal… Mas o Baía é muito bom, só acho que não sai muito bem da baliza, no um para um. Deve sair-se com o corpo estendido. O Schmeichel, por exemplo, saiu muito bem aos pés do Figo… mas o Figo é um génio. Gosto muito de ver o Schmeichel a sair dos postes. É impecável”.
Barrigana confirma que também o era. Olha com saudade exemplos de grandes exibições, mas guarda poucas imagens em papel fotográfico… “Os jornalistas levaram algumas e nunca mais trouxeram. Nem troféus, nem camisolas tenho, porque quando tive um problema familiar com a minha primeira mulher, desapareceu tudo. Tenho apenas uma foto em casa, com a camisola das Quinas”.
Em 14 anos ao serviço dos Portistas, nem um campeonato… “E sabe porquê? Andámos 14 anos a ser roubados. Era incrível o que nos faziam. Não é mentira que quando íamos jogar a Lisboa já levávamos meia derrota. Saíamos a chorar, porque os roubos eram escandalosos. Faz-me mal pensar nisso, porque sofremos imenso”.
E faz um alerta de coração Azul e Branco: “mas há que ter cuidado, porque isto está a voltar ao antigamente. Depois do 25 de Abril, o FC Porto libertou-se e conseguiu os êxitos que se sabe. Agora começa a ser demais. Aquele jogo com o Campomaiorense foi uma vergonha. Mas, olhe, nem me admiro, porque se dizem que o Benfica tem seis milhões de adeptos, há 40 árbitros na I Liga, é natural que 39 sejam adeptos do Benfica

Nunca tive relações sexuais na véspera de um jogo
Para chegar a campeão nacional foi preciso ir para o Salgueiros. “Vencemos o campeonato da II Divisão. Ainda lá estive três épocas e lá acabei a minha carreira”.
Gostava que isso tivesse acontecido no FC Porto, mas Yustrich “era um mauzão”: “Sabe que o tipo, nos treinos, colocava-se a dois metros de mim e mandava a bola para bem longe, só para eu não chegar lá. Como eu tinha fama e era um jogador respeitado, fazia-lhe sombra. Ele não gostava disso e acabei por sofrer as consequências”.
Nega que alguma vez o outro lado da fama – de ser um homem da noite – o tenha prejudicado. “Não vou dizer que não saía à noite. Saía, encontrava-me muitas vezes com os dirigentes nos casinos, mas sabia quando o fazia. À quarta e à sexta-feira havia treino específico dos guarda-redes. Na véspera nunca saía de casa, porque sabia que não ia aguentar o treino do dia seguinte”.
Fama de galã… “É verdade que as mulheres gostavam muito de mim. Cheguei a ter muitas atrás de mim, mas olhe que não dava para estourar dinheiro. Aliás, ganhava 2300 escudos (11.50€) por mês. Para aquele tempo, era bom, mas não era nenhuma fortuna”.
Garante que nem fisicamente saiu prejudicado por ter sido um balzaquiano… “Nas vésperas de um jogo, nunca tive relações sexuais, nunca. Dizia à minha mulher para se chegar para lá”. Sorri e atira com uma voz de segredo: “Conheci uma mulher lindíssima” (segundo as indicações pormenorizadas por Barrigana, “uma coisa do outro mundo”). Um dia ela foi ter comigo a um hotel, em Lisboa, onde estávamos em estágio, porque eu lhe tinha prometido uns bilhetes para um jogo com o Benfica. Não é que ela me apareceu no quarto?! O que tive de me segurar. Disse-lhe para ela descer até ao hall, que lá lhe levaria os bilhetes, mas foi cá uma tentação. Curiosamente, nunca mais a vi”.
Outras confissões proibidas, ficam para um livro, que um dia alguém terá de escrever. Porque o imenso Barrigana, hoje de olhos nostálgicos, continua a ter uma vontade de ferro para viver, uma memória inesgotável, até do sofrimento do menino que passou fome nos primeiros anos de vida, no Montijo.

SEGREDOS

Loucura
Mil histórias por contar, e muitas com um amigo de sempre: José Maria Pedroto. “Graças a ele fiquei a receber um subsídio do FC Porto, porque ele batalhou por isso, numa fase muito difícil da minha vida”. Uma circunstância é suficiente para compreender isto: “Tive um convite para ir jogar no Vasco da Gama. Ofereceram-me uma proposta de deixar um homem maluco – 200 contos! A meio da década de 40, ganhava 2300$00, e 300 escudos era por ser internacional. O FC Porto não me deixou sair. Naquela altura estávamos presos ao clube e não era fácil sair. Fiquei por cá”. Mas Barrigana pode orgulhar-se, por exemplo, de o seu primeiro clube – os “Onze Unidos ao Montijo – ter construído a primeira bancada com o valor da sua transferência para o Sporting (pasme!): cinco contos!

Poço de ar
Pedroto, agora como auxiliar importante nesta história. “Não me recordo bem qual foi o jogo. Sei que foi nas Antas e estava muito vento. Nunca gostei de jogar a favor do vento, porque e trajectória da bola torna-se traiçoeira de um momento para o outro. Veio uma bola muito por alto e não lhe consegui chegar. O Pedroto, com aquele ar mordaz, disse-me: “Então, pá, não te fazes às bolas?”. Respondi-lhe com a ironia possível: Que queres? Apanhou um poço de ar… “

Secador de cabelo
Barrigana vive entre o café e casa, casa e café, mas pensa a toda a hora no FC Porto, sempre o tema das conversas com os amigos e a mulher. Não compreende algumas coisas que se passam hoje, como as lesões… “Aquela rapaziada está sempre no estaleiro. Não entendo. No meu tempo, quando havia assim um problema, o massagista, que era o Chico Oliveira, passava calor com um secador de cabelo e depois esfregava álcool. Ficávamos bons em pouco tempo”. Realmente, outros tempos…

Rapto
O “mãos de Ferro” foi sempre muito cobiçado por outros clubes. No tempo do “valia quase tudo”, foi raptado pelo Benfica. Eis como tudo aconteceu: “Tinha acabado de cumprir o serviço militar em Coimbra e, um dia, estava num café, na zona das Antas, e surgiu-me um companheiro da tropa, a dizer que tinha de deslocar-me ao quartel, porque havia um caso grave comigo. Nem hesitei. Meti-me no carro com ele e… só paramos em Lisboa. Na verdade ele levou-me à presença de dois dirigentes do Benfica, que me ofereceram um contrato a ganhar 2800$00 por mês, mais 500$00 que no FC Porto. Deram-me o dinheiro para a mão e assinei o recibo. No mesmo dia, houve um dirigente do FC Porto, o senhor Celso, que estava em Lisboa e soube de tudo. Veio ter comigo e assustou-me com uma irradiação. Nem olhei para trás. Voltei para o Porto”. O dinheiro ficou com Barrigana – “não lhes tinha pedido nada…” – e o rapto gorou-se.

Superstições
Barrigana foi sempre um futebolista de superstições. Dois exemplos: nas Antas jogava de meias pretas, mas nos jogos eram azuis e brancas. Outra: “Morava na rua do Bonjardim e a caminho das Antas, para os treinos, tinha de passar na Igreja do Marquês e benzer-me três vezes”. O guardião actuava também com um fio ao pescoço, onde segurava uns santinhos. “Eram meus companheiros. Um dia fui jogar com a Académica. Nunca tinha perdido com eles e era um jogo fácil. Saí de casa e quando cheguei à rua vi que não os tinha. A mulher veio à janela e perguntou-me se eu os levava. Disse que sim, só para não voltar para trás. Perdi esse jogo. Custou-me cara a preguiça e a confiança…”

Lesão
A mais grave de todas foi num jogo com a Académica. “O Bentes surgiu isolado e… atirei-me com tudo para cima dele. Bati com a tíbia debaixo dos pitons da bota dele. Que dores horríveis. Fracturei a tíbia e estive três meses parado. Por causa disso não fui a Angola, na digressão que o FC Porto fez. Com muita pena minha. Estive lá depois, mas como treinador de futebol, e não vou esquecer aquele país. Depois do 25 de Abril, ainda tive outro convite para treinar em Salazar, mas a guerra assustou-me e recusei”.

…E o século XXI?
Desconfio de algumas SAD
A teoria é simples: “Desde que o FC Porto começou a ganhar campeonatos, as pessoas de Lisboa deixaram de ir tanto ao futebol. Olhe agora, que o Sporting vai em primeiro, como os estádios estão mais cheios. Tem só a ver com isso, porque o futebol, não tanto ofensivo como no passado, continua a ser um grande espectáculo. Eles, no Sul, não se entendem com os insucessos, mas vão ter de aguentar, porque o FC Porto continua a ser enorme”.
Fala com orgulho de um passado inesquecível e olha o futuro com grande desconfiança. Falamos de futebol… “É das SAD que tenho que tenho medo. Acho que podem vir a matar os clubes, a deixá-los em dificuldades e a tirar-lhes uma identidade muito própria. Não falo da do FC Porto, porque aí o clube é maioritário e tudo foi feito de olhos nos sócios. Agora essa do Benfica, por exemplo, dá que pensar. Confesso que detesto esse Vale e Azevedo, que está sempre a falar no Pinto da Costa. A inveja é um sentimento traiçoeiro e que nos abre o caminho à estupidez. Mas pode ser que me engane e que os clubes garantam a sua subsistência e a do futebol”.
Outra explicação: “Os clubes não têm capacidade para lutar com outros mais fortes financeiramente na Europa. Como é que o Sporting podia resistir a vender o Simão Sabrosa? Uma transferência naqueles valores deve ter dado para pagar os ordenados aos outros atletas durante um ano! ... A Lei Bosman abriu o mercado, mas estrangeirou as equipas. Achava bem que houvesse uma lei que obrigasse os times a terem no onze um número superior de portugueses em relação aos estrangeiros”.
Apesar de todas as complicações, Barrigana olha o futuro do futebol português com muita esperança. Por exemplo, acredita firmemente que “Portugal pode ganhar o Campeonato da Europa”: “Hoje, os portugueses estão mais iguais aos outros e têm a vantagem de serem craques a tratar a bola. Sinceramente, tenho a sensação que por vezes a nossa selecção até facilita. Os ingleses não são melhores do que nós e os alemães também não”. Barrigana recusa-se mesmo a dar conselhos aos seleccionáveis: “Eles não precisam de conselhos, porque sabem muito bem o que fazer”.
Agora, o “outro” mundo. Aquele com que Barrigana contacta todos os dias, através da televisão e dos jornais. “Não percebo as guerras. Tenho a certeza que as pessoas se desumanizaram. As grandes potências, como os Estados Unidos, a Alemanha, a China, tinham obrigação de tornar este mundo mais agradável”. Quase em revolta: “Faz-me uma grande confusão, por exemplo, que haja fome em África, com uns terrenos tão ricos. Num dia planta-se e no outro já se pode colher. Não percebo e fico triste com a fome, com a miséria. Não é nas minhas mãos que está a resolução de um problema desses, mas gostava de ver um mundo melhor”.

* * * * *

Frederico Barrigana, morreu a 29 de Setembro de 2007, com 85 anos, no Hospital de Águeda, vítima de problemas pulmonares. Barrigana, que apenas foi ultrapassado por Vítor Baía como o guarda-redes portista com mais jogos disputados no campeonato, nunca foi campeão pelo FC Porto, pois a sua chegada ao clube coincidiu com o período de 16 anos de "jejum". O corpo do antigo guardião está enterrado no cemitério de Barrô, freguesia do concelho de Águeda.
O Jogo
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