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19/11/07

Estórias da nossa História

NORMAN HALL

O «PORTUGUÊS» QUE AFINAL NÃO O ERA


O protagonista desta história jogou no FC Porto há 88 anos, o que equivale a dizer que foi inscrito na época de 1919-1920. Nasceu em Inglaterra, chamava-se Norman Hall e, juntamente com Abel D'Aquino Junior, é o único atleta de antanho a figurar na galeria dos sócios honorários do clube.
Numa altura em que os atletas eram inscritos por categorias (o FC Porto chegou a disputar os campeonatos de quartas categorias), Norman Hall, embora inscrito a meio da época (20/12/1919), passou desde logo a integrar a 1a categoria, o plantel de elite, na altura constituído apenas por António Lino Moreira, Jose Magalhães Bastos, Jose Ferreira da Silva, Harrison, Joaquim Couteiro, Floriano Pereira, Hamilton, Joaquim Reis, Edward George Bull e Alexandre Cal, vindo a revelar-se um grande jogador e um excepcional desportista.
Foi seu o golo da vitória por 2-1 (de grande penalidade) frente ao Sporting, no Campo de Monserrate, em Viana do Castelo, a 28 de Julho de 1925, na final do Campeonato de Portugal de 1924125, campeonato dedicado a Velez Carneiro «half center do Foot-Ball Club do Porto» (como se escrevia na terminologia da época), morto a tiro de pistola, logo após um jogo com os espanhóis do Desportivo da Corunha, na Travessa dos Congregados, para onde o atraíra um seu colega de trabalho, escriturário, casado, de seu nome Carmindo Ferreira Duarte.
Razões? Reza a história que se tratou de problemas de alcova, um crime passional, uma questão de adultério. Adiante. A história que queremos hoje contar é outra. Vem preto no branco no «Relatório e Contas do FC Porto» de 1926/27, refere-se ao jogo dos quartos de final do Campeonato de Portugal daquela época quando, a 3 de Abril de 1927, 0 FC Porto defrontou, em Lisboa, «Os Belenenses », e gira a volta da utilização do nosso Norman Hall na qualidade de cidadão português.
Este campeonato, organizado pela «Federação Portuguesa de Football Association» e disputado segundo um novo figurino, tinha no seu regulamento uma alínea que impedia qualquer equipa de alinhar com mais de dois estrangeiros.
Embora o FC Porto entendesse que Norman Hall - porque residia em Portugal desde os 8 anos de idade, jogava pelo clube há 15 e pela equipa representativa do Porto-Cidade desde 1919 - era, «moralmente» um jogador português, não quis correr riscos e tendo
já no seu «eleven» habitual dois estrangeiros (Siska, um húngaro que o treinador Akos Tezler, seu compatriota, recrutara no Vasas de Budapeste, e Fridolf Resberg, um norueguês que, tendo abraçado a carreira diplomática no seu pais e sido colocado no Consulado da Noruega no Porto, surgiu um dia na Constituição para treinar e ... tornar-se num avançado de categoria) fez seguir para a Federação, via Associação de Futebol do Porto, uma exposição no sentido de saber se Norman Hall seria ou não considerado jogador português para cumprimento do regulamentado.
Apreciada e discutida a exposição em reunião do Comité Executivo do Campeonato de Portugal - a qual assistiu Manuel Mesquita, representante do FC Porto, entre outros delegados - a decisão final foi coincidente com o ponto de vista azul e branco, qualificando Norman Hall como jogador português.
Atingidos os quartos de final após ter levado de vencida o já defunto «Estrela de Braga», coube ao FC Porto viajar ate Lisboa para, como se disse, defrontar «Os Belenenses».
No onze, ao lado de Siska, Pedro Temudo, Flávio Laranjeira, Álvaro Sequeira Júnior, António Coelho da Costa, Álvaro Pereira, Valdemar Mota, Acácio Mesquita, Resberg e António Oliveira, lá estava Norman Hall.
A vencer por 2-1 0 FC Porto viria a sofrer o empate mesmo em cima do minuto 90 quando o árbitro de Beja, Flecha de sua graça, sancionou um golo em claro fora de jogo, levando o encontro para um prolongamento de meia hora, durante o qual o clube da Cruz de Cristo se colocaria na posição de vencedor (3-2), com novo golo em fora de jogo, como, de resto, unanimemente, a Imprensa da época reconheceu.
Os erros foram tão flagrantes e grosseiros que o FC Porto se sentiu obrigado a protestar o jogo junto da Federação, acompanhando o protesto dos 500.00 regulamentares.
O árbitro reconheceu os erros, pelo que não parecia haver outra saída que não fosse mandar repetir o jogo. A Federação, sabendo isto, abafou o protesto, considerou sem qualquer justificação os 500.00 perdidos a favor dos seus cofres e, numa cambalhota impensável, tirou o coelho que tinha escondido na cartola. Alegou que o FC Porto tinha transgredido o art° 36 Cap. IV do Regulamento ao alinhar com três estrangeiros (Siska, Resberg e Hall) e, como tal, deveria ver a derrota confirmada.
Reproduzindo o que na época foi escrito, e sempre citando o referido relatório da gerência do FC Porto, dir-se-á que «a resolução do caso Hall foi uma traiçoeira armadilha preparada por habilidosos muito práticos no metier para assim terem absolutamente segura a vitória do grupo de Lisboa, visto que, em campo, e com um juiz imparcial, não a conseguiriam.
Apesar da nossa Associação se ter imposto perante esta flagrante injustiça, não houve processo de fazer valer os nossos direitos, visto que a acta da reunião atrás referida tinha sido deturpada, não correspondendo a verdade da resolução tomada,
motivo por que nem sequer foi assinada.
Resumindo: mais uma vez os dirigentes lisboetas da Federação Portuguesa de Football Association conseguiram os seus fins não olhando a meios».

É caso para dizer agora: decorridos mais de oitenta anos, o protesto
genuíno ficou sem decisão e a massa sem ser devolvida!

Luís César

in Dragões Nº 265 Outubro 2007
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