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09/11/11

Boa crónica do Manuel Serrão

O regresso da nação
JN

Nas últimas semanas, tenho visto e lido muita gente a confundir o momento actual da equipa de futebol profissional do F. C. Porto com o clube que ostenta o mesmo nome. Convém que ninguém esqueça que mais até do que um particular momento, eventualmente menos feliz, a própria equipa de futebol sénior dos dragões, não é a mesma coisa que o F. C. Porto.

O F. C. Porto é muito mais que um clube e, por maioria de razão, muito mais que uma equipa de futebol.

Dito isto, imaginem o que penso quando o que se tenta confundir com o F. C. Porto é apenas e só um determinado momento, menos venturoso é certo, da sua equipa de futebol.

Devo até dizer que o que me levou a escolher o tema desta crónica nada tem a ver com futebol, tendo tudo a ver com o F. C. Porto.

A imprensa económica de ontem dava grande relevo ao interesse do meu clube em concorrer à anunciada privatização de um dos canais da RTP.

Como não tenho nenhuma outra informação privilegiada, tomo a notícia como boa e para o meu objectivo nesta crónica até a considero muito boa.

Vamos admitir que sou um portista exagerado, que exagera no amor ao clube e nesse amor exagerado entram fantasias sobre um clube que é mais do que uma equipa de futebol.

Vamos dar de barato que o F. C. Porto é mesmo unicamente uma equipa de futebol, ainda assim, uma das melhores do Mundo, que não se pode tratar por menos, quem já tem dois títulos de campeão do Mundo conquistados numa única geração. (Graças a Deus, na minha.)

Com estes considerandos, a pergunta que se impõe é muito simples: para que é que um clube que é só uma equipa de futebol (mesmo muito boa e triunfante) quer um canal de televisão nacional e generalista, quando até acabou de comprar um por cabo de inspiração regional?

Os seus adversários troçarão da coisa e já devem estar em curso graçolas várias sobre essa hipótese.

Também devo dizer que este é o lado para que durmo melhor, porque estas graçolas e os mails piadéticos costumam acabar por volta do Natal, que já está aí ao virar da esquina. Para dar lugar à habitual choradeira que só termina com a chegada do Verão.

Apesar de nem todos terem capacidade para reconhecer esse atributo, o F. C. Porto tem sido um baluarte de toda a região em que está inserido. É normal que se sinta vocacionado para estender a sua influência e a sua comunicação no espaço, no tempo e nos targets.

A tomada do poder no Porto Canal já foi um sinal claro, sobretudo desde que se soube que o F. C. Porto não queria o canal para fazer uma Porto TV à imagem da paupérrima Benfica TV. Onde se aplica o velhinho "hit" dos Taxi: quem vê TV sofre mais que no WC...

É verdade (e é também uma pena...) que nem todos os nortenhos são adeptos do F. C. Porto. Mas neste particular o futebol une mais que a política e é possível encontrar mais disponibilidade para defender em coro as questões da região no quadro do F. C. Porto, do que nos areópagos da política partidária.

Num tempo em que a instabilidade e a crise vão ditar as suas inexoráveis leis, num momento da vida nacional em que o pretexto da poupança pública tem servido para aumentar a concentração dos poderes de decisão na capital, uma voz como a do F. C. Porto, amplificada por canais de televisão poderosos faz todo o sentido. É até urgente, atrevo-me eu a dizer.

Com a bênção do senhor presidente da República (por acaso um Dragão de Honra), entrou no léxico quotidiano a questão de saber a diferença entre o que é urgente e o que é importante.

Em conformidade com essa moda, diria que é urgente pôr a equipa de futebol do F. C. Porto de novo na senda das vitórias e das boas exibições, mas é importante não confundir essa urgência conjuntural com a realidade F. C. Porto, que paira acima, bem acima, de qualquer bola que teima em não entrar.

Porque o Hulk falha de modo incrível um penálti e a recarga, ou o árbitro escamoteia de uma forma ainda mais incrível outras duas grandes penalidades.

A Nação, perene, não pode depender de coisas tão efémeras como estas.
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