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04/05/10

O Adeus a Pedroto

Esta tarde estive a fazer uma limpeza geral ao computador e reparei numa crónica antiga que «roubei» há uns anitos ao blog Terceiro Anel. Aqui está ela com uma foto escolhida por mim:

Memórias do Clássico (IX)

Categoria: O Último Clássico das Antas

Setembro 1984 .
O Adeus a Pedroto

A época de 1984/1985 começara com um Benfica bi-campeão, a ver partir o seu treinador Eriksson, e com ele Stromberg e Fernando Chalana, estrela do Euro 1984. A sucessão de Svennis foi complicada, apesar do sueco ter indicado Toni para seu sucessor, mas Fernando Martins demorou a tomar uma decisão, que começou por passar por Tomislav Ivic, que depois de assinar contrato, despediu-se, prometendo "voltar um dia", acabando por ser contratado Pal Csernai, conhecido por ser um dos treinadores mais duros do Mundo, o verdadeiro "treinador de chicote na mão". No FC Porto também havia novidades: Artur Jorge era o escolhido para suceder a Pedroto ; Fernando Gomes é impedido de se transferir para o AC Milan ; Jaime Pacheco e Sousa rumavam a Alvalade, alegando salários em atraso ; Pinto da Costa, em manobra vingativa, "rouba" Futre ao Sporting, que rescinde por "falta de condições psicológicas", depois de conhecer a vontade dos dirigentes do seu anterior clube em emprestarem-no à Académica.

Depois de uma derrota no Bessa, a contestação à opção por Artur Jorge para substituir Pedroto começava a sentir-se, só que a resposta do treinador portista foi dada em campo, numa vitória por 2-0 frente ao Benfica, na semana seguinte, com Fernando Gomes, aos 16 e 18 minutos, a apontar os dois golos frente a um conjunto encarnado decepcionante, numa antevisão do que viria a ser o Benfica de Csernai.

O técnico húngaro, no final do jogo, queixou-se de falta de sorte: "O Benfica teve algum azar. O Veloso teve que ser substituido muito cedo, o que me obrigou a uma alteração no sistema de jogo. Foi nessa altura que o FC Porto apontou os dois golos. Admirei a vontade de vencer dos nossos adversários, mas os seus jogadores abusam, por vezes, da agressividade, que chegou a ser violência". Artur Jorge, bem diferente dos dias de hoje, não se refugiou em lugares-comuns: "Foi um bom jogo de futebol, com o FC Porto a vencer com inteira justiça. Dominamos o jogo totalmente, criamos inúmeras oportunidades para dilatar o marcador e o Benfica não criou uma única oportunidade de golo. Penso que está tudo dito."

Um mês depois o FC Porto acabaria por ser eliminado da Taça das Taças pelo modestíssimo Wrexham, um conjunto galês, que actuava na 4ªdivisão inglesa. A partir daí, o caminho foi feito de êxitos, mas, pelo meio, a perda de José Maria Pedroto, que, em Janeiro de 1985, morre, em casa, vítima de cancro. Este FC Porto-Benfica acabou por ter o significado de ser o último com Pedroto vivo. E acabou com a vitória do seu clube contra o clube que odiava, mas que teve perto de orientar, em 1981, depois de ter sido "corrido" do FC Porto, no Verão de 1980, por Américo de Sá. O seu nome foi "vetado" por alguns dirigentes "encarnados" e acabou no Vitória de Guimarães, onde Pinto da Costa era conselheiro do jovem António Pimenta Machado, depois de rejeitar um convite do Sporting, que virar-se-ia para o britânico Malcolm "Big Mal" Allison. Baroti, que acabara de se sagrear campeão, ficava mais um ano na Luz, que viria a ser dominado pelos leões de "Big Mal", que conquistavam Campeonato e Taça. Pedroto regressaria em 1982, com Pinto da Costa, às Antas, mas acabou por não voltar a ser campeão.

José Maria Pedroto, segundo se sabe, terá indicado Artur Jorge para seu sucessor, e foi ele que acabou por criar as bases do FC Porto que viria a ganhar tudo - a nível interno e externo - ainda na década de 80. Triunfos que não chegou a viver, pois faleceu a 8 de Janeiro de 1985, depois de fazer três pedidos: um cálice de whisky, que bebeu com o auxílio de uma colher ; um cigarro, que não conseguiu fumar ; e, por fim, um sumo de laranja, que não chegou a beber. Morria assim, o homem que Fernando Vaz definiu como "a figura mais fascinante que conheci entre os homens do futebol do nosso tempo, apesar de ser amado por uns e detestado por outros".

Detestado por Mário Wilson, que dois dias antes da morte de Pedroto, ainda disparou: "Os lacaios que me fazem guerra são maus discipulos de um grande mestre, que procurou sempre guerras, mas quando o fez, avançou sempre na primeira linha, nunca buscou a rectaguarda, nunca deu homem por si. Pedroto é um sacarneirista, um verdadeiro mestre na arte da actuação em conflito". Pinto da Costa é que não gostou do que ouviu, e após a morte de Pedroto, em Assembleia Geral do clube das Antas, decretou a proibição de entrada nas instalações do clube de Wilson, ainda acrescentando: "Pedroto, para o fim, não era mais do que um leão moribundo. Pena foi que tenha levado um coice de um burro, que se aproveitou da sua incapacidade definitiva. Mas Pedroto, mesmo longe de nós, era grande de mais para ser atingindo por um coice de um burro qualquer".

Pedroto, também conhecido por "Zé do Boné", nasceu em Penafiel, a 21 de Outubro de 1928, iniciando a sua carreira de treinador nas escolas do FC Porto, de onde seguiu para técnico principal da Académica. Passou depois por Leixões e Varzim, até à primeira passagem pelas Antas, onde, em três anos, não ganhou qualquer título. Esteve cinco anos em Setúbal, conseguindo um segundo lugar, e dois anos no Boavista, onde voltou a conseguir ser segundo. Regressou às Antas, sagrando-se bi-campeão nacional, em 77/78 e 78/79, numa passagem entre 76 e 80, interrompida pelo "Verão Quente", que o levaria a Guimarães, de onde regressou ao FC Porto, para os dois últimos anos da sua carreira como treinador, o último dos quais, interrompido à 10ª Jornada, pois, a doença obrigou-o a tratamentos delicados, em Inglaterra, e apesar de orientar tecnicamente a equipa, dia após dia, estava impossibilitado de comparecer nas Antas, onde o seu adjunto António Morais colocava as suas ordens em prática.

Para além dos dois títulos de campeão, Pedroto venceu quatro Taças de Portugal - 3 pelo FC Porto e 1 pelo Boavista - uma Supertaça - pelo FC Porto frente ao Benfica - e foi finalista vencido da Taça das Taças, no seu último ano como treinador. Ao todo, em competições de clubes, terá feito cerca de 767 jogos como treinador principal, contando com perto de 57,5% de vitórias nas partidas que disputou, sem um único despedimento no decorrer da(s) temporada(s).
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